JOÃO W. NERY (BR)

O que você acha que a realização dessa conferência representa dentro da trajetória do movimento LGBTQIA no Brasil?

Primeiro ela é internacional. Então tem gente aqui de vários lugares, de outros países, acho que a vinda do Buck Angel é um marco dentro do movimento brasileiro das transexualidades masculinas. Então, sem dúvida nenhuma, é muito importante esse encontro porque ajuda a aumentar a visibilidade das sexualidades plurais, das discussões de gênero, do âmbito queer. Além da divulgação que isso tem na imprensa. É uma pena que esteja acontecendo só em são Paulo, acho que ele teria que ser itinerante, ir para outros estados também. SSEX BBOX está de parabéns, porque é uma empreitada muito difícil, sem dinheiro, com muitos voluntários ajudando, trabalhando. Eu só tenho elogios.

O que você acha do tom midiático do Buck Angel?

Eu nunca vi nenhuma performance dele, mas conversei com ele e o discurso é ótimo. Mas de qualquer forma eu acho a postura dele muito interessante, quando ele diz que é um homem de vagina. Se ele quer mostrar a vagina dele que mostre, eu também tenho, mas não mostro a minha. Ele também ganha dinheiro com isso, trabalha com a pornografia, enfim. Eu sou um cara mais acadêmico, mas acho válido, porque é uma forma também política de atuar.

O Leo Moreira Sá disse enxergar uma grande dificuldade de trazer os homens trans para o movimento político. Você vê isso também?

Sim. Eu acho que o movimento trans masculino é muito inicial ainda, os garotos são muito jovens, estão muito preocupados em contar para os pais, em saber qual o hormônio que vão usar, em saber que psicólogo conseguir. Então há uma visão ainda muito individualista, egocêntrica mesmo, muito umbilical, olhando para o próprio umbigo. E a grande maioria ainda não tem a dimensão do que representa esse movimento das transmasculinidades para conseguir direitos que eles nem sabem que não têm. Eles nem sabem que são patologizados, que são considerados doentes mentais. Tudo bem, eles sofrem transfobia em casa, na escola, no trabalho etc., mas ou choram ou se deprimem…

Eles não teriam ainda se dado conta da especificidade desse preconceito…

Exatamente. Eles não têm. Falta uma conscientização maior. Quando você chama esses garotos para uma reunião, tem que botar uma cerveja no meio senão eles não vão. E não é para ser uma festa, é uma reunião política. Mas cada trans homem que eu adiciono no meu Facebook eu coloco a ficha do Ibrat [Instituto Brasileiro de Transmasculinidade] para eles se cadastrarem, e indico também os outros trans homens do mesmo estado que ele, para ele entrar em contato. Essa é uma forma de fortalecer o movimento, colocar uns falando com os outros, se cadastrando através do Ibrat. Acho que é o primeiro passo para uma conscientização política maior, de empoderamento.

Como você vê a relação entre a transmasculinidade e o machismo?

É muito comum no período de transição você encontrar um estereótipo machista num trans homem. Isso porque nada no corpo dele o favorece ser visto como uma pessoa do gênero masculino. É a voz fina, o quadril largo, a presença dos seios, enfim, tudo é feminino. O que sobra para a afirmação dessa identidade é a roupa, um relógio mais bruto, é talvez segurar o saco que nem existe, é talvez baixar o queixo para falar mais grosso, ou assimilar estereótipos machistas. Isso tudo para poder fortalecer sua autoestima e a sua figura masculina. Mas eu observo que na medida em que eles começam a se hormonizar, começam a ficar mais seguros da sua figura masculina, esses estereótipos começam a se esvaziar. Não há mais necessidade deles. Porque, na verdade, todos nós, obrigatoriamente, tivemos que viver num mundo feminino. Nós sabemos o que é um assédio sexual, sabemos o que é um machismo, nós vivenciamos isso de certa maneira mesmo não nos sentindo mulheres. Então, não tem como um homem trans reproduzir o machismo como um homem cisgênero. Não estou dizendo que seja impossível nem que não exista. Existe de tudo. Mas, de uma maneira geral, o machismo é altamente combatido dentro do movimento, inclusive há muitos homens trans que estão hoje no transfeminismo. Um dos princípios do Ibrat é fortalecer o orgulho de ser trans e combater toda forma de preconceito, toda forma de patriarcado, dessa coisa terrível que é machismo.

E sobre a relação dos trans homens com gays e lésbicas cisgêneros?

Aí varia muito. Falo pelos que vieram comentar comigo. Da parte das lésbicas existe, às vezes, uma certa agressividade com relação aos trans homens, negando o fato de eles serem homens. Porque elas não são – sobretudo, as que se dizem sapatão. Não sei se elas se sentem ameaçadas… Não quero julgar. Mas há uma certa reclamação de que as lésbicas acusam os homens trans de serem lésbicas também, só que mais masculinas. Da parte dos gays também existe um pouco desse preconceito. Agora, por outro lado, há muitos trans homens que namoram gays – como namoram outros trans homens também. São trans gays. Mas, de qualquer forma, o movimento é gay. O movimento LGBT é predominantemente gay. Eles têm o poder.

São os que chegam aos cargos de gestão quando esses surgem, por exemplo.

Porque o fato de ser homossexual não te impede de trabalhar. Na verdade, a letra T tinha que ser a parte do LGB. Porque não é uma questão de orientação sexual, é uma questão de identidade de gênero. Então, os transexuais e os intersexuais acham que tinham que configurar uma questão a parte. Porque são outras necessidades. Os gays precisam de leis, claro, para se combater a homofobia – não tem lei nenhuma. Como não tem para os trans, nesse ponto nós estamos juntos. Mas muitas outras demandas são diferentes. Tudo é gay. A Parada do Orgulho LGBT é gay. As lésbicas são gays. Fica difícil você ter visibilidade dentro desse sufoco todo. Mas acho que já houve uma melhora. Representantes importantes dos movimentos gays já estão fazendo uma autocrítica sobre essa questão, já estão com um olhar um pouco diferenciado para o movimento T.

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