As muitas faces de Daniela Sea
Ativista LGBTQI, cineasta e atxr, Daniela Sea atua no cinema, na performance e na música. Aos 16 anos, saiu de casa em busca de maneiras diferentes, e próprias, de estar no mundo – jornada que levou, por exemplo, à experiência de viver como um homem durante seis meses na Índia. A fama veio por papéis como o do homem transexual Moira/Max Sweeney, no seriado de TV The L Word, do canal Showtime, e também pela participação no filme Shortbus (2006), do diretor John Cameron Mitchell (também criador de Hedwig – Rock, Amor e Traição, de 2001). Em 2011, retomou a parceria com Mitchell no curta-metragem Lady Dior, produzido para a grife francesa Christian Dior. Nenhuma dessas experiências na TV ou no cinema, no entanto, lhe conferiram nenhum estrelismo à personalidade. Figura acessível, acompanhou diversas mesas e rodas de conversa durante todos os dias da 1ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil. Sempre com um sorriso no rosto e um violão na mão.
A seguir, trechos das falas de Daniela nos três momentos oficiais em que participou do evento: nas mesas “Conexão São Paulo – Bay Area” e “Pra Lá do Binarismo”, e na sessão de fotos e autógrafos “Dialogando com Daniela Sea”.
Alienígena
“Eu sempre me senti alienígena na maior parte do tempo – e continuo a me sentir assim, de jeitos diferentes. De certa forma, minha vida foi uma constante revelação. Quando eu penso em como eu me identifico, lembro que esse foi um tema sempre muito confuso para mim. Eu era uma criança que parecia um menino e, embora que não possa dizer que me sentisse como um menino, tampouco eu me sentia como as outras garotas ao meu redor. Eu tenho sorte de sempre ter tido muita liberdade para experimentar, desde criança – ao menos dentro da minha família. Por exemplo, eu nunca fui forçada a usar camiseta, como as meninas, o que me fazia sentir selvagem, de certa forma. E isso foi muito libertador. Eu sinto que a minha essência não se identifica com determinado gênero ou sexualidade.”
Fora da caixinha
“Eu sempre me refugiei, em diversos momentos, em comunidades diferentes, como entre as sapatonas, como ocorreu quando eu comecei a me descobrir. Sempre fui queer, sempre rompi limites. Sempre que tentavam me colocar numa caixinha, eu respondia quebrando os padrões. Pelo fato de me identificar muito com algumas etnias dos nativos norte-americanos – nas quais é possível, por exemplo, que você se vista de acordo com o gênero com o qual você se identifica –, eu costumo dizer que tenho dois espíritos, o que é uma forma também de dizer que eu aceito o binarismo. O que não me impede de muitas vezes já ter me identificado como trans, mas no sentido de um espectro de possibilidades dentro do qual você pode se mover. Eu nunca abri mão de ser uma pessoa livre para me expressar de formas diferentes dependendo do que eu sentia em determinado dia ou momento. Todas as vezes que eu tentei me encaixar numa categoria ou em outra, eu me senti oprimida. Era como se eu tivesse apagando partes de mim.”
Resistência e compaixão
“Quando eu penso sobre gênero, eu penso no amor, na possibilidade de liberdade, penso na vida como uma constante experiência, e quero estar ao redor de pessoas que pensam do mesmo jeito. Minha maior ambição é estar vive e saber que eu faço parte da Terra. O importante para mim é pegar essa força que eu recebo da minha comunidade e levá-la para quem não vive isso. O que eu sempre comprovo, convivendo com as pessoas, é que o que temos de mais precioso é a doçura, é sermos sempre agradecidos e fortes. Resistir e nos proteger, mas também ter compaixão e buscar entender porque tantas pessoas se sentem presas. Todos nós nos sentimos presos em níveis diferentes. Eu sinto muita compaixão pelos cristãos, pelos evangélicos, porque deve ser um jeito muito difícil de viver, carregar todo esse ódio. Eu tenho certeza que eles não são felizes.”