O que você pensa sobre realizar uma conferência como essa num país com tanta herança de racismo, sexismo, homofobia e transfobia?
Acho que a primeira coisa que temos que pensar é que essa herança é universal, não é uma particularidade brasileira. Como estrangeira, vinda dos Estados Unidos, quando eu penso no Brasil, penso em positividade em relação ao sexo, liberalismo na sexualidade, nas danças sensuais, no samba e no quanto as pessoas aqui são livres com seus corpos – comparando com o lugar de onde eu venho. Somos mais fechados. Inclusive é muito interessante ver como você, sendo daqui, começou com uma pergunta que mostra que talvez você tenha uma perspectiva totalmente diferente da minha, uma pessoa que vem de fora. Daí a importância de realizar essa conferência aqui, pela chance de falar sobre essa dualidade, essa polaridade, das experiências em sexualidade. Ou seja, por um lado há preconceito e por outro, o liberalismo. Acho uma ótima oportunidade de avaliar todas as perspectivas. O mesmo, claro, poderia ser dito se realizássemos um evento como esse nos Estados Unidos. Também temos fobias e preconceitos que merecem toda a atenção.
É a sua primeira vez no Brasil?
Quarta vez.
E hoje, aqui pela quarta vez, você diria que somos mesmo tão liberais quanto você pensava?
Eu venho aprendendo mais sobre os brasileiros. Muitos dos organizadores da conferência são amigos meus e conversamos sempre sobre as mudanças políticas que têm ocorrido por aqui, do conservadorismo religioso que tem ganhado espaço no poder e nos conflitos que tudo isso causa, entre outros aspectos, nas questões LGBTQIA. Isso tem me dado outra perspectiva sobre a realidade brasileira e me feito perceber que, bem, o Brasil não é assim tão diferente de outros lugares. Mas mesmo assim, eu acredito que existe aqui uma abertura para a sexualidade que não se verifica nos Estados Unidos. E falo honestamente.
O que você espera dos próximos dias?
Eu acredito que vai acontecer aqui o que precisa acontecer. Então diria que estou confiante, mesmo com todas as diferenças que se reunirão aqui. Seguramente irão acontecer coisas inesperadas, algumas conversas podem ficar tensas, alguns convidados poderão acabar não vindo ou mesmo por conta de todo o impacto que as discussões causarão em quem assistir – afinal, não é sempre que se fala dos temas que serão tratados aqui. Tudo pode acontecer e eu espero que tudo aconteça [risos].
Para finalizar, diga algo sobre o Brasil que você achava e descobriu que é verdade.
Nossa… Deixe-me pensar…[risos].
Talvez nossas “danças sensuais”… [risos]
Sim! [risos]. Sua música e sua dança são realmente cheias de poesia. Além disso, acho que o Brasil tem uma herança linda de mudanças de comportamento e é um lugar muito espiritual. É isso que eu vejo aqui, algo que acho tremendamente inspirador e sempre comprovo em cada brasileiro que conheço, em todas as vezes que volto aqui. Vocês têm uma energia linda – e isso, sim, é único.