Questão de atitude
A ativista queer Miss Ian Librarian, que atua pela equidade de gênero e sexualidade e como conselheira psicológica para adultos no Center for Sex and Culture – além de cuidar do acervo bibliográfico do centro – participou de mesas, integrou plateias e mostrou como moda e política podem estar intimamente ligadas – e à serviço das liberdades individuais. Entre uma atividade e outra, ela deu uma rápida entrevista à reportagem da 1ª Conferência Internacional [SSEX BBOX] & Mix Brasil. Veja como foi a conversa:
Falando um pouco sobre expressões de comportamento, por que você acha que as pessoas tendem a achar que alguém que se expressa do jeito que quer – quanto à sua aparência, roupas, cabelo etc. – não pode ser confiável? Você mesmo contou que algumas pessoas, no seu trabalho, chegam e perguntam “que porra é isso”, quando, na verdade, “essa porra” é a bibliotecária responsável por todo o acervo bibliográfico do Center for Sex and Culture, e mais: atua também como conselheira para pessoas que tentaram suicídio.
Tenho comigo que minhas roupas dialogam com a moda, mas são também políticas. Então houve também um processo para mim de assumir que eu poderia vestir as roupas que eu queria vestir. Eu diria que é muito libertador para uma pessoa vestir algo que ela jamais usaria – nem que seja entrar numa loja e experimentar algo que normalmente você não compraria. Esse exercício vai fazer você se enxergar de um jeito diferente, talvez com uma dose de honestidade a qual você geralmente se recusa – por exemplo, pelo fato do quanto sua identidade para você está ligada a coisas que você veste, quando, na verdade, as coisas que te fazem quem você é são as que estão dentro de você. Eu quero que as pessoas me vejam desta forma e com estas roupas. No meu cotidiano, principalmente como consultor em saúde mental, isso [a forma como se veste, como se apresenta] tem um impacto do tipo: [as pessoas dizem] você é definitivamente “esquisito”, o que me faz sentir confortável. Mesmo que a “esquisitice” desta pessoa não esteja no modo como ela se veste, ela de alguma forma não se sente “normal”, e eu não aparento ser “normal”. E nós podemos nos relacionar a partir disso.
Carol Queen disse que se impressionou em ver como nós, brasileiros, expressamos nossa afetividade na rua. O que isso te ensinou sobre a expressão de nossas sexualidades?
Não sei dizer, estive aqui por tão pouco tempo…
Mas você não foi a festas, bares?
Ah, sim, com certeza fui… (risos).
E aí?
Ah, percebi que as pessoas são mais “físicas”. O que é interessante, porque eu cresci numa cidade pequena, onde muitos homens demonstram sua afetividade com outros homens, mas nada disso pode ser considerado “gay” – porque, afinal, ninguém ali era gay! Na Bay Area nós temos nossas bolhas pessoais, onde todo mundo fica se perguntando “será eu aperto a mão”, “será que eu abraço”, e nessas sempre rola uma confusão. Então é mais fácil quando você sabe que está num lugar onde todo mundo se cumprimenta com um beijo, por exemplo.